Insatisfeitos.
por Amortax
Mais cedo, vendo minha adorada TV aberta (sim, sou meio masoquista), vi um comercial oferecido por uma rede de supermercados, que alegava, de modo sarcástico, que as pessoas nunca estão satisfeitas com nada.
Naquele momento, fui obrigado a desligar a TV (ufa) e pensar um pouco sobre o assunto. Após um tempo, vim a concordar com a propaganda. Quer dizer, quantas vezes não ouvimos uma garota reclamar que precisa ganhar “uns quilos” dias depois de reclamar histericamente sobre a “obesidade mórbida” dela? Ou aquele cara que consegue o artigo-de-luxo-da-hora (muda com o tempo) que todos querem, e logo enjoa dele? Quiçá uma garota aleatória, que pinta o cabelo de vermelho e na semana seguinte quer pintar de rosa, somente porque “não quer mais essa cor brega”. Posso citar até mesmo eu que, pasmem, também faço parte dessa tão chamada humanidade. Compro um mp3 de 1gb e logo sinto raiva dele, por não armazenar a quantidade de músicas que quero, por ter uma entrada defeituosa, por ter um botão afundado, etc. Sinto uma profunda insatisfação, e ao mesmo tempo não posso fazer nada, apenas angustiar pelo fato de não ter dinheiro para comprar algo mais moderno e repetir o ciclo quase-infinito da insatisfação.
Ninguém está imune da insatisfação. Ela é um parasita faminto, que anseia por destruir nossos sonhos recém-adquiridos, transformando-os em fantasmas horrendos do passado. O único modo de acabar com ela é esquecer tudo de novo e atual, ou morrer. Infelizmente, na era da informação excessiva, não é possível se desligar de tudo assim, tão facilmente. Não sem um preço. Junto com a satisfação de não sentir mais insatisfação, vem a insanidade de não saber o que é novo e atual, o que está na moda e o que não está na moda, etc.
Logo, o único modo concreto de não sentir insatisfação material sobre algo recém-adquirido sem conseqüências mentais graves é a morte. Ei, pense por esse lado: nunca mais terá que se preocupar com as novas placas de vídeo.
Encarando o sono de forma drástica,
Amortax.

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